Obra "Palavra Engajada. Ensaios de Crítica e Pedagogia Política" – coletânea de artigos curtos de Reginaldo Moraes, organizada por Sebastião V. e Cruz e Luís Vitagliano, está disponível no portal da Fundação Perseu Abramo.

A obra "Palavra Engajada. Ensaios de Crítica e Pedagogia Política" – coletânea de artigos curtos de Reginaldo Moraes, organizada por Sebastião V. e Cruz e Luís Vitagliano, está disponível no portal da Fundação Perseu Abramo.
Segundo o organizador, os artigos de Reginaldo cobriam vasta gama de temas, e sintetizava em cada um deles massa impressionante de informações e ideias. Tudo num estilo primoroso, com o selo de seu humor inimitável.  Segue abaixo um dos artigos de Reginaldo.
 

O Teorema  do Pântano  e seus incômodos corolários

Reginaldo Moraes
(outubro, 2010)

Para chegar ao mar, é preciso atravessar o pântano. Política se faz com o que se tem, não com aquilo que se quer.

É possível, bem provável, que muitos intelectuais e militantes de esquerda citem com reverência a frase de Lênin e com misto de desprezo e asco a frase de Lula. Mas, parece,  não é apenas  a distância entre as duas figuras que leva a esse contraste. No entanto...

A prática da política é algo que se faz em um mundo de incertezas. Algumas dessas incertezas são provisórias, elimináveis, residuais – são aquelas que resultam de conhecimento ainda não alcançado, mas, em princípio, alcançável. Por outro lado, há as incertezas sistêmicas, constitutivas do próprio jogo, porque o ‘conhecimento’ que as desvenda é produzido pelo jogo, pela interação dos sujeitos.

A política que se conta – num tempo e num espaço exterior ao dos sujeitos envolvidos – é muito diferente da política que se faz. Para sair do ponto ‘A” em que estou, visando chegar ao ‘Z’ que pretendo atingir, tenho que superar, contornar ou confrontar obstáculos criados pelos outros. E esses outros reconstroem tais obstáculos conforme o movimento que faço para superá-los. Vários riscos me atingem, seguramente. Por exemplo, o risco de subestimar ou superestimar os obstáculos – algo que me conduz ao fracasso da derrota ou à acomodação resultante de aceitar como ‘dados’ os limites que outros acenam para mim.

Na política, já se disse, o navegador navega sem mapas. Isso é ainda mais verdadeiro se ele pretende mudar o mundo e não simplesmente dar continuidade a suas mesmices.

Subestimar os obstáculos (e a força do outro) ou pretender fazer a política com o que se deseja ter – eis um risco. Mas há outro, simétrico a esse.

Aquele que se dispõe a andar pelo pântano corre o risco de criar mais pântano. Andar no pântano amplia o pântano. Talvez alguém até se afeiçoe ao pântano, nele se dê bem.. Outros tenderão a confundir o pântano com o mar, apresentando insucessos ou recuos táticos como resultados almejados, como sucessos.

Resolver o enigma do pântano é o desafio dos reformadores do mundo. Ignorá-lo é a prática com que se consolam os minimalistas. Ou aqueles que acham mais certo salvar suas almas no céu dos princípios, desprezando a vida e as esperanças daqueles que dizem representar ‘no longo prazo’, isto é, num final dos tempos improvável e sempre adiado.
 

 

 

 

 

 

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